Tem série ao fundo! Pois tal frase, comum entre a galera do surfe, parece servir como uma luva para o Brasil do XXI. Tem série ao fundo! Reformas, investimentos, crescimento potencial dão sinais de boas ondas. Mas como surfá-las?

Historicamente no Brasil, busca-se em exemplos externos, modelos de políticas que ajudem o país a “bombar” a economia.  Pelo lado da inovação, os exemplos do Vale do Silício, Boston, Israel e mais recentemente China são emblemáticos. Pelo lado dos países que saem de trás e conseguem alcançar os desenvolvidos, podemos citar os exemplos do Japão, da Coréia do Sul, de Singapura e, de novo, da China. Esses países utilizaram uma estratégia que se valeu do papel proeminente do Governo e escolha dos setores e empresas campeãs nacionais.

A última experiência malsucedida de copiar tais políticas “a la brasileira” foi a do Setor de Construção Naval que decolou subitamente e logo sucumbiu pela falta de coordenação entre política, cadeia de fornecedores e empresas. Isso ocorre – e sempre acaba meio que se repetindo – porque é impossível replicar uma política de países que são culturalmente diferentes. Além disso, o contexto também é outro. Se de um lado Japão e Coréia do Sul se beneficiaram de um momento histórico pós segunda-guerra, contando com o forte apoio dos EUA como mercado dos seus produtos, do outro a China (sem apoio semelhante) tem buscado esse desenvolvimento de forma forçada contando com uma estrutura de governo relativamente estável no longo prazo e não necessariamente democrática.

Após anos de tentativa de replicar políticas desenvolvimentistas relativamente fechadas “a la modelo Asiático”, o Brasil está buscando se abrir, realizar reformas que dinamizem negócios com o mundo. Após a primeira batalha (a reforma da previdência), os mercados dão sinais de que vai “dar onda” de novo. Pode até ser uma “série”! Mas saberá, o país, surfar?  Em linguagem mais simples ainda: se quisermos (ou se conseguíssemos) surfar essa “onda positiva” (acordo com EU, alta histórica da Bolsa e aprovação da reforma da previdência, etc), precisaremos de uma “prancha nova” (infraestrutura e tecnologia) e um “estilo próprio” (criatividade e inovação).

Porém, o país não pode incorrer no erro de “imitar” outros países. O Brasil precisa trilhar o seu próprio caminho e talvez o melhor benchmark possível, seja olhar para o próprio Brasil naquilo que temos de mais positivo.

O Brasil ficou conhecido como o País do Futebol pelo seu jeito inovador e criativo de jogar. Como? Uma mistura de talento e investimento nas categorias de base por parte dos clubes e patrocinadores. Esse tempo parece ter passado com a “europeização” do futebol. Até parece que o “futebol arte” desapareceu. Ou, pior, não faz lá muita diferença mais. Temos que nos reinventar na economia e no futebol como fizemos no surfe! Os números não mentem!!

Hoje, já podemos dizer que somos o novo “país do surfe! O país conta com um dos maiores territórios litorâneos do mundo (e não necessariamente as melhores ondas) e, após anos de hegemonia americana e australiana, o Brasil conta com extraordinária geração de surfistas que inventaram um jeito totalmente novo de surfar e que em 6 anos já trouxeram 4 títulos mundiais para casa!

Essa geração, conhecida como “the Brazilian Storm”, conta com Gabriel Medina, Adriano de Souza e Ítalo Ferreira como brasileiros campeões mundiais em 2014, 2017, 2018 e 2019. Mas tem ainda Felipe Toledo, Miguel Pupo, Tatiana Weston-Webb, Silvana Lima e Tainá Hinckle. Todos parecem já ter nascido internacionais, falando inglês fluentemente, focados em treinar. Mas, além disso, com seu estilo único de surfar, fazem arregalar os olhos do mundo para um país de potencial incrível chamado Brasil.

Na Economia não é diferente. É preciso colocar recursos nas novas gerações e permitir com que a inventividade e espontaneidade das vocações nacionais apareçam. O país tem muitos empreendedores com talento, criatividade e resiliência. Exemplos desse novo Brasil não faltam: o nosso agronegócio está cada vez mais tech, o mercado financeiro está se reinventando, brotam startups em todos centros de conhecimento do país, temos um super potencial em energias limpas e renováveis e novas soluções de serviços conectam quem produz em quem consome de formas inteiramente novas, aproveitando mais ainda o tamanho de nosso mercado!

O Brasil parece estar deixando de ser o país do futebol e virando o país do surfe. O que não podemos perder é a oportunidade de ser o país do século XXI. O futebol é como aquele velho negócio que já foi uma startup nos tempos do Pelé e precisa se renovar. Vamos deixar de ser o país das commodities com foco em custo e preços baixos para nos transformar no país do valor agregado (high-tech e low-tech), o país dos produtos agro premium, da indústria de nicho, da digitalização dos serviços. Aí, finalmente, teremos portas abertas para o século XXI… E desta vez sem “tow-in” (“governamental”), aquele jet ski  que puxa os surfistas para entrar nas ondas grandes. Vamos na braçada e no estilo! Esse sim é o “brazilian way”, o “jeito brasileiro” que podemos e devemos nos orgulhar!

Assim como a Brazilian Storm!

Paulo Antônio Zawislak
Professor Titular do Departamento de Ciências Administrativas e do Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGA) da Escola de Administração (EA) da UFRGS. Pesquisador do CNPq. Desde 2010 coordena o Núcleo de Gestão da Inovação Tecnológica (NITEC) no mesmo programa com projetos ligados à economia e gestão de tecnologia e da inovação em empresas, cadeias industriais e redes de empresas. 
[email protected]

André Cherubini Alves
Ph.D. em Gestão de Tecnologia e Inovação no Núcleo de Gestão da Inovação Tecnológica (NITEC). Pesquisador de Pós-Doutorado na Universidade de Campinas e Professor Adjunto de Estratégia e Inovação da FGV. Diretor do Instituto do Vale do Silício para Inovação Empresarial (SVIBI).
a[email protected]

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