No contexto presente, pleno de informações e interpretações que se mesclam, se sobrepõe e às vezes se contradizem, há de se perguntar sobre as possibilidades que os indivíduos têm de se orientarem, que modos de viver e de existência escolher… Cada um de nós pode sentir, em maior ou menor intensidade, a urgência de atribuir sentidos as coisas, situações, sob pena de sermos sufocados por informações, tecnologias, aplicativos, imagens, textos e sons que permeiam e constituem a realidade.

Nesse cenário, surgiram as inevitáveis biografias no estilo autoajuda, contando a história de

celebridades, de executivos bem-sucedidos e vários livros ensinando onde estaria o pote de ouro do final do arco-íris. Pois bem, não tenho a fórmula para encontrar o pote de ouro, infelizmente, mas gostaria de trazer para pauta um livro.

Há certo tempo li a história do livro “Os inovadores”, de Walter Isaacson (Companhia das Letras, 2014). Neste livro, em particular, o que encontrei foi uma coleção de biografias encadeadas e unidas por um fio condutor: a inovação nas tecnologias que sustentam a ciência da computação a partir da criação colaborativa.

Os Inovadores não se trata de um livro direcionado somente para quem estuda, pesquisa ou se interessa por computadores, inovação e internet; trata-se de um livro para quem deseja compreender mais sobre os processos de criatividade, sobre trabalho em grupo, a criação coletiva e, principalmente, para entender para onde estamos indo, entender o contexto tecnológico do mundo em que vivemos e as repercussões na sociedade e em nossos modos de viver e de existência.

Trata-se de “uma biografia da revolução digital”, onde o protagonista não é alguém, mas o trabalho colaborativo de pessoas que, ainda que por motivos e em circunstâncias diferentes, vislumbraram com décadas de antecedência o mundo em que vivemos hoje.

O ponto de partida da história não é o que a maioria das pessoas costuma imaginar: o de que a história da ciência da computação começa em algum momento das primeiras décadas do século XX. 

O livro inicia a sua jornada cem anos antes, no início do século XIX, com Lord Byron e sua filha, Ada, condessa de Lovelace, que foi contemporânea e parceira intelectual de Charles Babbage. Primeiro destaque do livro o papel das mulheres na inovação. Isaacson voltou no tempo para contar as várias biografias que permitiram o ambiente digital que habitamos hoje, tecendo uma narrativa que conecta arte e ciência. Ada Lovelace é figura central da história toda, pelo que ela representa do espírito da coisa: “a constante interação entre o mundo da ciência e o mundo das artes”. Para o ator, e eu também concordo, as inovações e os avanços ocorrem, sempre, na esquina entre as avenidas da Ciência e das Humanidades.

Este livro apresenta um retrato da capacidade humana de inovar, da importância de não apenas assimilarmos conhecimento, mas termos a disposição para questioná-lo, sermos imaginativos e pensarmos diferente. Além de reforçar que trabalho coletivo é importante, a narrativa do livro não deixa de destacar que personalidades geniais permitem uma ruptura no status quo. Ficam evidentes características similares nos personagens tais como a harmonia entre personalidades analíticas e as mais vinculadas à arte, uma simbiose que supre as lacunas inerentes a todos nós e viabiliza grandes ideias, transformações e negócios; e a importância da miscigenação que engloba diferentes aspectos tais como a formação, os incentivos que recebemos na infância, localização geográfica, timing e alguns outros aspectos que, isolados, parecem não dizer muito, mas são essenciais à inovação, e mais do que isso aos modos de viver. Fez-me lembrar da frase: “A diversidade dos modos de vida humanos é uma diversidade dos modos de nos relacionarmos com a

vida em geral, e com as inumeráveis formas singulares de vida que ocupam (informam) todos os nichos possíveis do mundo que conhecemos 1 ”.

Inspirada neste livro que trata da inovação, arte e o protagonismo coletivo e em algumas questões levantadas na 31ª Bienal de São Paulo Como pensar sobre coisas que não existem; Como imaginar coisas que não existem; Como falar de coisas que não existem; que podem parecer, à primeira vista, bastante abstratas. Mas por outro lado me levam a refletir sobre um dilema contemporâneo: como viver em um mundo em transformação permanente, onde as ditas “velhas” formas – de trabalho, de pensar, de comportamento, de conhecimento, de arte – já não cabem mais ….. E como lidar com as ditas “novas” formas que ainda não estão claramente delineadas?

Pesquiso e leciono sobre os Modos de Saber e Aprender nas organizações. E aprendi com isto, e também com minhas vivências, meus alunos e orientandos. O ser humano como pessoa em relação, ser singular, não pode existir sem a presença do outro. O indivíduo-com-os-outros tem consciência do seu papel, que o resguarda de alguns dos efeitos mortais da uniformização. Então, é possível ser singular no coletivo.

Policio-me para ser uma professora crítica e reflexiva acerca de minhas práticas, sobre meu modo de existência. E creio que o desenvolvimento do senso crítico poderá ocorrer em diferentes contextos e situações. A vida exige conhecimento; mas também exige consciência dos sentimentos e energia constantes. Habitualmente digo: “Ouçam primeiro, antes de agir, mas não se esqueçam de ouvir fora e dentro de si, ou seja, não duvidem da sabedoria que já existe dentro de vocês.” A capacidade de ver o outro, de entender o diferente e superar o narcisismo das pequenas diferenças. Ter a percepção de que nem sempre vemos as coisas como elas são, mas como nós somos. Ou onde estamos. Ou o que queremos. Espera-se que os administradores fomentem seres humanos melhores, cada vez que colaborarem para despertar numa pessoa a importância de perceber o trabalho com profundidade e como possibilidade de realização, além de ganha pão. 

Entendo que trabalhar de forma a realizar nossas melhores potencialidades é um direito humano universal. Assim, parece importante pensarmos um projeto educativo, quando estamos falando de desenvolvimento de pessoas nas organizações, que garanta a sobrevivência da curiosidade e do interesse pela descoberta. Isto porque acredito serem estes os dois maiores capitais, dado que talvez possam ativar o “desejo de querer saber sempre mais”, base de toda a inovação e criação. Pensando sobre desenvolver pessoas, inovar, criar e os nossos modos de viver, vejam o tamanho do atual desafio do administrador:

Sempre as perguntas: por quais pessoas responsabilizar-se? De quais incumbir-se?

Como ouvir seus sussurros? Como dar-lhes voz? Como deixar-se afetar-se? Como

forma-los preservando a singularidade de seu modo de existência? Como abri-los às

passagens e às metamorfoses? Não se trata apenas de frágeis minorias constituídas,

(….) nem de entes planetários ameaçados de extinção, também em número crescente,

ou ainda dos planos de existência descartados diariamente, mas também dos devires

minoritários de todos e de cada um: dos seres gaguejantes, dos apenas esboçados, dos

que desistiram, dos seres por vir ou dos que jamais virão à existência, dos que a

história dizimou, dos futuros soterrados no passado, daquele povo de zumbis que

antes era apenas um “fundo” e que, por vezes, como no cinema (ou na História?),

enfim invade a cena como protagonista multitudinário. 2 .

Portanto, trata-se de nossa própria existência, incompleta sempre, em estado de esboço, de obra por fazer, que cabe prolongar como se prolonga o arco virtual de uma ponte quebrada ou em construção.

Espaços e iniciativas como o EA Alumni são terreno fértil para criação colaborativa e a busca de modos de viver e existência possíveis.

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