Tenho sido recentemente convidada por pessoas queridas para escrever e flar sobre diversidade de forma geral. Embora possivelmente partindo de “vícios” do texto acadêmico – ora positivos, ora complicadores – novamente aqui terei o exercício de criar uma proximidade menos formal que a acadêmica, mas não tão íntima como na poesia, quando me permito seguir outro tipo de viagem por outras bandas e outras redes.

De antemão suponho que o fato de tais convites terem aparecido não me tornam, de forma alguma, a pessoa mais indicada ou “infalível” no que tange ao tema, mas sim, o que mais me motiva é o exercício da empatia (que por vezes confesso que me traz um elevado nível de sofrimento existencial) e, sobretudo, a vontade de me fazer sensível ao diferente e ao aprender. Começo, assim, ratificando minha imperfeição e meu direito à diferença existencial, que também se manifestam nisto! Eu ainda erro, me desculpo, e lá vamos de novo…

O ensinar não é exclusividade da pessoa docente, tampouco o aprender é exercício privativo de quem estuda – afinal, quem deveria estudar mesmo? Não deveríamos todos nós fazê-lo? Penso que alguns dos nossos problemas no que se refere a diversidade e inclusão começam mesmo por aí: a rotulagem. No universo organizacional, em termos genéricos, temos uma ânsia por normatização (útil em certa medida) e, por uma infinidade de motivos, de etiquetagem, de rotulagem, até acabarmos, por diferentes motivos, em preconceitos: 

– “a empresa deve funcionar assim”; 

 – “ela não escuta bem, logo, é deficiente, não podemos contar com ela para nada”;

 – “aquele autista é complicado”;

 – “aquela ‘bixa’ afeminada ‘tá’ querendo lacrar;

 – “ele se acha um geniozinho, aquele arrogante, só porque faz tudo mais rápido”;

 – “olha lá a ‘véia’, ela tá quase se aposentando e fica ‘inventando moda’ aqui na firma, devia ficar em casa fazendo crochê”;

 – “aquela ‘guriazinha’ é a professora? Sério?”

 – “só porque é negro fica vendo preconceito em tudo”

 -“reclamando da ergonomia? Tinha que ser essa gorda que não pára de comer”

 – “lá vem o batuqueiro”

E por aí vai…e sim, lutar contra os preconceitos que manifestamos (conscientemente ou não) é um exercício tão diário quanto os hábitos de higiene (que, sim, estou pressupondo que o sejam diários por aí onde sou lida, e mesmo nisso também estou tendo uma ideia pré-concebida, hehe – e logo irá alguém pensar, “a professora insinuou que não escovo os dentes!” e me enviar mensagem inbox pedindo satisfações!). Mas, percebe como é complicado? Mesmo sem querer erramos: em atos, em linguagem, e normalmente primeiro em pensamentos. No geral nossas mentes procuram padrões, e do pouco que ainda entendo disso suponho que haja sofrimento ao não encontrá-los…não lidamos bem com o diferente de forma geral: o diferente do padrão, o diferente de nós mesmos.

Mas, comentando sobre algo que vem na perspectiva contrária a padrões: eu tenho tripofobia. Você já ouviu falar? Não é formalmente reconhecida como transtorno, até onde sei, mas tenho pavor de padrões em algumas imagens como, por exemplo, de flor de lótus, colmeias e celulares com multi-câmeras. Na verdade, eu preciso justamente procurar a diferença para me acalmar.

Eu posso conversar com você por uma hora e seguir um raciocínio, e ser extremamente metódica em meus processos de trabalho, mas tenho várias ideias ao mesmo tempo, e as mais legais acabam surgindo dessas conversas multifocais que às vezes consigo estabelecer, ou da leitura de vários livros ao mesmo tempo. Falei um pouquinho disso para você pensar que, sim, nem sempre padrões são úteis em nossas vidas. E agora mesmo, estou tentando usar tripofobia para falar de empatia (e eu juro que não era minha intenção fazer poesia!).

Estou lhe convidando, e mesmo novamente convidando a mim mesma, a sermos um pouco “tripofóbicos” intencionalmente, por assim dizer: aprendermos a olhar a diferença de cada pessoa (sim, você com certeza também tem uma diferença para chamar de sua!) com carinho e curiosidade respeitosa, e não tentarmos enquadrá-la ou encaixá-la de forma normativa. Antecipo a quem possa perguntar: isto não será aprendido nas cadeiras da faculdade, nem nas palestras de consultorias, mas sim na reflexão diária, individual e coletiva, e para a vida inteira, sobre os próprios valores e os próprios vieses: lendo mais, lendo de tudo; aproximando-se de Psicologia, Filosofia e Ética; consumindo conteúdos construtivos e criativos; enfim, conversando com pessoas diferentes. E querendo, principalmente, amar o ser humano! “Amar”? Não, não estou sendo piegas.

Um dos projetos mais maravilhosos em que tenho atuado na extensão universitária, o HR Trans, é minha emoção diária, pois me permite estabelecer vínculos não de “servidão” ou qualquer pretensão de verdade absoluta, mas de parceria e aprendizado, onde temos – todes – confirmado o quanto a diferença tem valor na construção de cada identidade humana, que precisa ser empoderada e valorizada no âmbito da existência: experimente conhecer pessoas transgênero, inclusive aquelas agênero e não-bináries, e descobrir aí no meio pessoas negras, gordas, com deficiência e – o que particularmente foi um presente para mim – algumas com atenção totalmente fora de foco, altas habilidades e talentos fora do comum.

Mesmo na diferença entre pessoas, há tantas solidões e opressões comuns, e tantas conversas te levam a questionar sobre a própria diferença dentro da diferença, de espectros, de mundos, para além de 0 e 1, “on” e “off”, gremistas e colorados…

Se nós temos mais que dois neurônios (brincadeira à parte), por que permanece a insistência em se ver a vida tão somente sob duas perspectivas excludentes, deixando de aprender com uma diferença nova a cada dia? Vamos ser (mais) humanes, porque as máquinas também estão “tomando conta”, e daqui mais um tempo vamos ter que lidar com as diversidades delas junto com as nossas. Diferenças são características – não defeitos. Não há o que consertar, o que clarear, o que minimizar, o que esconder.

Então, por fim (preconceito sobre mim: sou prolixa): não se sinta pessoa diminuída, nem pense que “diferença” é “mimimi”: eu, mulher cis, hétero, branca, classe média alta, acadêmica, que aparentemente “não entendia nada do riscado”, conheço as minhas diferenças (neuroatípica na superdotação, na sinestesia e no pavor a colmeias) e meus privilégios, e isso não me impediu de ser sensível a aprender (a todo momento) com a diferença alheia.

Você tem as suas diferenças também. Valorize-as e não as negue. Conheça as diferenças alheias, mas não somente como quem observa passivamente, mas como quem respeita e tenta agir promovendo meios para que outras pessoas também respeitem toda e qualquer diferença. Faz parte da nossa humanidade, do próprio errar e aceitar. E crescer. Até chegar o ponto de nos incomodarmos com as flores de lótus dos nossos próprios universos preconcebidos.

Christine da Silva-Schröeder é professora e pesquisadora em Gestão de Pessoas e Relações de Trabalho da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

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